29 de Janeiro de 2009

I Mostra Verão Teatral do Galpão - SENAC Rio

Publicado por Ribamar Ribeiro em Sem Categoria

Verão teatral do Galpão do SENAC RIO

flyer1 - flyer1

Programação:

O Novelo Cinzento
Texto: Ribamar Ribeiro e Renato Neves
Direçao: Ribamar Ribeiro
Data: 28 e 30 de Janeiro, äs 20 horas

Pequenas Sagas Nordestinas
Textos: Carlos Drummond Andrade, José Mapurunga, Graciliano Ramos e Ribamar Ribeiro
Direçao: Ribamar Ribeiro
Data: 04 e 06 de Fevereiro, às 20 horas

4X Comédia
Textos Variados
Avaliaçao Aberta da turma de artes cênicas do SENAC Rio - módulo 1
Data: 09 de fevereiro, às 20 horas

O Beija-Flor Suspenso
Texto e Direçao: Ribamar Ribeiro
Data: 11 e 13 de fevereiro, às 20 horas

O Maldito
Textos: Plinio Marcos e Ribamar Ribeiro
Direçao: Ribamar Ribeiro
Data: 14 e 28 de março, às 20 horas

Fome
Texto e Direçao; Ricardo Rocha
Data: 18 e 20 de março, às 20 horas

A Gaivota
Texto: Anton Tchecov
Direçao: Os Ciclomáticos DNA
Data: 25 e 27 de Março, às 20 horas

ENTRADA FRANCA!!!

Local: SENAC - Galpão para o Trabaho e a Cidadania
Rua Emiliano Felipe, 173 - Irajá
Proximo a Gata de Irajá e a Passarela 25 da Av. Brasil.

29 de Janeiro de 2009

Os arquétipos da Commedia Dell´arte

Publicado por Ribamar Ribeiro em Sem Categoria

images2 - images2

Na estrutura de estudo da Commedia dell´arte podemos presenciar uma base das personagens onde ela serve como instrumentos corporais para a construção de inúmeras personas. Cada estrutura criada define metodologias e conceitos para a busca de novas estruturas. O mais importante da commedia dell ´arte, além da própria essência, é sua ética que na verdade aparece em função de uma necessidade. Como os artistas neste período (estamos nos referindo ao século XVI, como material de estudo) ainda não tinham uma estruturação do ofício da arte, esta necessidade fez com que de uma maneira “mabembe” e itinerante eles se organizassem. A partir daí, estes artistas começam a perceber e desenvolver estudos práticos e viáveis para sua sobreviência e manutenção. Os próprios personagens eram determinados a partir deste conceito: o artista que possuísse determinado figurino e máscara específicas se mantinha naquela base arquetípica de estudo. Isso, de certa maneira, fazia com que ele se aprofundasse, querendo ou não, no estudo daquela personagem. Diferentemente de alguns dos conceitos orientais, que tinham por base que o ator deveria dedicar-se inteiramente apenas ao estudo de uma personagem por toda sua vida. Este conceito filosófico - estético da Commedia Dell´arte permeou e influenciou até mesmo o tipo de organização que vivemos hoje nas artes cênicas.

images 1 - images 1

Esteticamente a comédia que se coloca em um patamar (e que hoje, infelizmente, por inúmeras confusões, determinações e pseudos fazedores de comédia volta a cair em um lugar menor e vazio) através da estrutura do bufonesco, grotesco e até propriamente da farsa para se chegar a Commedia Dell´arte (não como uma linha evolutiva, mas como um jogo de interrelações), percebemos que neste ponto evidencia a comédia como uma linha crítica, questionadora e viva de uma sociedade (que já era o seu papel, onde Aristófanes já havia conduzido na Grécia Antiga, seguida por Plauto e Terêncio na comédia latina).

E estas influências são positivas dentro dos arquétipos das personagens:

Arlequim - o zanni (servo) com sua estrutura mirabolante, acrobática e ingênua;

Pantalone - com sua estrutura avarenta e luxuriosa, trazendo a figura do novo rico que não se encaixava nesta sociedade nova que se formava (nem pobre, nem nobre);

Dottore - a figura intelectual e bufonesca, pedante e arrogante, que se utilizava de um certo conhecimento para humilhar e demonstrar poder;

Colombina - outra zanni (serva), figura sedutora com andar sensual e vaidosa e se mostrava como uma figura ambígua, amiga e cruel;

Innamorato - geralmente filho do mercador (pantalone) ou dottore, estudava em locais nobres e voltava educado e comportado, por vezes, com uma comportamento efeminado como demonstração de beleza e garbo;

Innamorata - geralmente filha de nobre podendo ser uma princesa. Era extremamente delicada, suspirando muito e gentil;

Capitano - era uma sátira das figuras militares, demonstrava poder, ams era totalmente covarde;

Briguella - outro zanni, próximo do arlequim, porém traiçoeiro e ambicioso;

Um estudo deste conceito faz com que o entendimento da comédia, do cômico se expanda e principalmente descobrimos que fazer rir não é fazer graça. Existe um conceito matemático e aristotélico por trás do riso, que se for aprofundado se torna sofisticado e verdadeiro, sem perder o gracioso e por vezes erótico.

27 de Janeiro de 2009

E o Carnaval?

Publicado por Ribamar Ribeiro em Sem Categoria

mangueira - mangueira

Desfile na Estação Primeira de Mangueira

250px Logotipo da Unidos de Vila Isabel - 250px Logotipo da Unidos de Vila Isabel

Novamente fiquei um pouco desaparecido, mas o tempo estava curto e gostaria de escrever algo com consistência e sem pressa. Este ano novamente estou envolvido e trabalhando com Carnaval. Este ano com um diferencial, estou fazendo a preparação da Comissão de Frente da Escola de Samba Vila Isabel. Juntamente com Marcelo Misailidis que é o coreógrafo. Um trabalho intenso e que ficará muito bonito na Avenida. O tema tem tudo haver comigo, uma grande homenagem ao Teatro Municipal.

images - images

E também estarei desfilando no carro da Escola de Samba Rocinha. Ano passado participei de uma carro alegórico que foi super bacana, tirando o final onde fiz vexame e desmaiei em função de um problema no carro que soltou uma fumaceira e eu inalei e caí. Enfim, coisas de carnaval. Até brinco dizendo que sou do Carnaval por vocação. Antigamente eu odiava Carnaval e Escolas de Samba. Mas depois de desfilar pela primeira vez na Porto da Pedra e depois por um longo tempo fazer trabalhos em Carros e alas coreografadas com a Estação Primeira de Mangueira, sob a batuta de Max Lopes, juntamente com minha grande amiga Carla Meirelles (onde trabalhamos juntos também na Grande Rio, Portela e agora Rocinha), me apaixonei por esta apoteose criativa. Pude entender melhor os conceitos e principalmente a logística de como tudo acontece. Afinal de contas, aquilo tudo tem motivo para dar errado e o mais interessante é que dá certo! Realmente é mágico! Este apego com o carnaval só aumentou quando dirigi o musical sobre a história do Samba: É isso Aí, Irajá! com música e textos de Nei Lopes. Só ratificou a minha admiração por este universo! Espero que este Carnaval sejá belíssimo! E até breve!

11 de Janeiro de 2009

Crônica ao artista

Publicado por Ribamar Ribeiro em Sem Categoria

O que é ser artista? Qual o papel do artista? Qual o meu papel hoje? Acabei de chegar em casa e angustiado com estas perguntas que norteiam a minha mente… Assisti a dois trabalhos com propósitos diferentes. Um era me fazer rir. Não ri de nada!!! Achei vazio e banal. O outro me fez rir, chorar, pensar… Inclusive me mobilizou a escrever!! Estava angustiado por escrever.

Espero que escrever dentro das novas regras ortográficas! Será que o que fazemos deve fazer sentido para alguém ou para nós mesmos? Buscar o que é arte para alguém ou estar dentro de uma estética dominadora e bitolada? Criar ou sobreviver? O artista reproduz e é influenciado por seus acontecimentos e conhecimentos! E a ética? O que é falar de ética hoje? Em tempos de clips, hdtv´s, net, blogs, mp5…enfim, eu me utilizo desta ferramenta para o desabafo…se alguém ler, que bom! Se não…fico com meus devaneios registrados.

Um dos trabalhos que assisti em nada me acrescentou o outro me arrebatou. Talvez por identificação ou gosto, mas não acredito nisso! Aí ouço: “Não é bom, mas funciona.” ou “Não é bom, mas o público vai!” ou até ” Não precisa ser bom, tem que ganhar dinheiro”. Talvez eu seja romântico ou ingênuo. Ou nada disso. Idiota mesmo! Mas não consigo me contentar com o pouco, sabe? Não consigo ver o vazio e me acomodar! E falar: “Porque tenho que falar que é bom, por que é igual.” Será que temos que ser importante para alguém? Olhar para algum artista e pensar: “Um dia gostaria de ser como ele…”, digo, pensar como ele. E será que sou importante para alguém como artista? O que chega ao meu público? Ser conhecido basta? O que fica das minhas idéias, dos conceitos de que acredito, do preço que pago por ser quem sou? Talvez nada fique!

O artista produz da dor, seja ela qual for. E quando escrevo não é com a pretensão de ser importante para alguém! Mas será que o meu pensamento atingirá o uno dentro de um coletivo? Quando a sua ética e seu conceito é necessário para alguém é fazer com que você se sinta vivo. Nem que seja para um. Acredito que devo ser sincero sempre! E ao assistir o outros devo aceitar por terem status ou criticá-lo por não gostar. Ou querer que seja do meu jeito…não sei, mas o vazio, o não dizer nada, o inócuo que não toca! Estamos caminhando para o caos do vazio… Talvez o Big Bang inverso! Talvez o que seja“… É tempo de entrar mais diretamente em relação com os fatos, de adquirir com seu contato o sentimento de sua diversidade e sua especificidade, a fim de diversificar os próprios problemas, de determinar e aplicar-lhes um método que seja imediatamente apropriado à natureza especial das coisas coletivas…” como disse o pensador Durkheim.

Buscar nesta angústia é o momento de criar. Acredito que sobreviver e pensar é necessário. Não devemos nos contentar com pouco! Aceitar o pequeno, a ode a mediocridade, se satisfazer com: “Não é bom, mas é melhor que aquele…não diz nada, é só pra divertir, mas está ganhando grana.” Ou até pior aquele que finge que sabe e enfeita com palavras bonitas mas a nada atinge. Enfim, aqui escrevo apenas humildes pensamentos de um artista angustiado. Se um dia estas palavras forem lidas espero que eu possa respondê-las através da arte.

Termino com um dos trechos de pensamentos de Baudelaire em seu escrito: “Sobre a Modernidade”: “…assim ele vai, corre, procura. O que? Certamente esse homem, tal como o descrevi, esse solitário dotado de uma imaginação ativa, sempre viajando dentro do grande deserto de homens, tem um objetivo mais elevado do que um simples flâneur, um objetivo mais geral, diverso do prazer efêmero da circunstância. Ele busca esse algo, ao que se permitirá chamar Modernidade…”

9 de Janeiro de 2009

Crítica de Sobre Mentiras e Segredos por Robson Camargo no FESTIVALE

Publicado por Ribamar Ribeiro em Sem Categoria

Crítica dos espetáculos por Robson Corrêa de Camargo
Espetáculo : SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS
Texto e direção Ribamar Ribeiro

SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS
Melodrama Tragicômico
do Grupo Os Ciclomáticos
Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro

Suburbanos Criadores Cariocas

Quais as mentiras e os segredos que escondem o Grupo suburbano carioca Os Ciclomáticos, na adaptação e releitura dos textos de Nelson Rodrigues? Uma delas é evidente. Se o XXIII FESTIVALE queria discutir as novas tendências dos teatro brasileiro, conseguiu, e de forma original.Confesso que no início fiquei um pouco apreensivo sobre as escolhas e ausências que estavam sendo anunciadas nos palcos do Vale do Paraíba, na cidade de São José dos Campos, neste ano de 2008. Mas aos poucos ficava claro a construção de um diálogo intenso entre dramaturgia e encenação e a riqueza das propostas selecionadas que apontam para um século XXI criador.

Sem contar os atores que nos introduziram nestes temas, dois dramaturgos formaram o centro das atenções e nos ajudam a entender algumas das novas tendências que apontam no horizonte: o veterano Luiz Alberto de Abreu e o mitológico Nelson Rodrigues. Por incrível que pareça, os diretores vivos e os dramaturgos encenados desenvolveram um intenso e reconstruído diálogo que, de certa forma, aproximou os diretores e esses dramaturgos de forma inaudita. O dramaturgo paulista Luiz Alberto de Abreu é certamente um dos grandes dramaturgos brasileiro, pela amplitude e qualidade de sua obra, pelas montagens e pela sua inserção colaborativa no trabalho de vários grupos brasileiros, construindo um novo drama e uma nova encenação. Sua dramaturgia, gestada no inesquecível e irreverente grupo Mambembe, nos casarões escarpados da Rua dos Ingleses, em São Paulo, é fruto de um intenso diálogo reconstrutor das fontes e estilos da dramaturgia mundial. Leitor ativo, reconstrói à sua moda, sonhos dramáticos e quixotescos imersos em citações, colagens, montagens que nascem da e na cultura popular e em diálogo com todas as formas de expressão, sem preconceito. Como carpinteiro usa distintas madeiras e goivas para realizar os cortes necessários para sua arte de diversos feitios. Nomeie-se um grande dramaturgo, poeta ou romancista e você poderá encontrar partes de seu estilo ou de sua técnica na obra de Luiz Alberto de Abreu. Com o fermento da cultura popular, principalmente os da comédia, ele sova nosso passado cultural cozinhando uma dramaturgia de primeira qualidade.

E assim também foi Nelson Rodrigues. Infelizmente Nelson viveu em um tempo onde a dramaturgia que se construía tinha fronteiras mais claras e, sob o nosso ponto de vista multimídia contemporâneo, mais limitadas. Autores e encenadores viviam mundos separados. Seu diálogo era mais restrito, embora não de menor qualidade. Inspirado pela dramaturgia norte-americana, principalmente no anarco-socialista Eugene O’Neill, Nelson dialogava nervosamente com certo realismo “de vanguarda” e marginal nos Estados Unidos. O’Neill reconstruía Checov, Ibsen, Strindberg, Bernard Shaw, introduzindo no palco o idioma falado nas ruas e becos dos marginais da América, questionando o propalado sonho americano, sempre inalcançável. Este terreno da marginalidade foi revolvido a beça por nosso Plínio Marcos, outro autor dos malditos.

Nelson, por outro lado, se dirigia às mazelas do subúrbio carioca se concentrando numa critica dos costumes e da moral. Adriano de Paula Rabelo, em sua Formas do Trágico Moderno nas Obras Teatrais de Eugene O’Neill e de Nelson Rodrigues nos conta que “Uma vez perguntaram a ele (Nelson Rodrigues) quais eram as suas influências, e ele disse que eram uma só: O’Neill, O’Neill e O’Neill(…)”. Se O’Neill trazia a tragédia para a contemporaneidade dos excluídos norte-americanos, Nelson levava a tragédia para as margens da Central do Brasil, de forma particular e competente. Este terreno da marginalidade foi revolvido a beça por nosso Plínio Marcos, outro autor dos malditos e talvez mais parecido com O’Neill que Nelson. Mas isso pouco importa.

O saudável e inusitado da montagem de Os Ciclomáticos é a saudável releitura rodrigueana, pois se apóia não somente em grande escrita cênica de forma competente, que foi o que vimos nas arenas de São José dos Campos. Se o jornalista O’Neill se introduziu no mar dos marginais, atravessando todas as classes sociais, o jornalista “reacionário” Nelson navegou nas mazelas dos subúrbios cariocas retratando a miséria trágica brasileira, em seus quase míticos personagens suburbanos, tornando-se hoje reconhecidamente o mestre dos dramaturgos de nosso país. Nelson rebaixou à terra os pecados capitais e a virgindade, a traição virou tragi-comédia. Ninguém fez isso antes e não se fará depois. Infelizmente, como nota Alexandre Mate, esta mitomania obstaculiza uma miríade de outros grandes dramaturgos que compõem nossa cena. Estamos frente a uma moda de encenar Nelson Rodrigues. Mas eu gosto dela, numa época que se evitam os grandes textos dramáticos, embora também exija que os olhares dramáticos se dirijam a outras paragens, pois Nelson é grande mas não é o único e vimos isto com grande força no espetáculo recortado, colado ou re-enquadrado de Os Ciclomáticos.

O diretor e sua equipe artística, de grande qualidade, deixou as técnicas empoladas do performativo teatro atual para, como um alfaiate cortar, recortar e reconstruir a nova roupagem rodrigueana. Poderíamos até dizer, em processo colaborativo com o falecido Nelson, utilizando rubricas, trazendo o coro secundário em uma de suas obras para o primeiro plano e elaborando uma colagem criativa de seu texto reconstruíndo Nelson. Para quem quiser ter uma idéia das medidas tomadas pelo autor dramaturgo-encenador Ribamar Ribeiro, vejam partes do espetáculo ou algumas fotos em (http://osciclomaticos.blogspot.com / ).

‘Sobre Mentiras e Segredos’ é um verdadeiro desmontar e remontar do universo gracioso rodrigueano ou mesmo comprem seus ingressos e se preparem para uma nova apresentação. Vale a pena, sãoirreverentes. Este grupo de dez anos de idade constrói seu texto em camadas antepostas, contraditórias, num processo colaborativo com a obra de Nelson, aproveitando a ausência do grande autor, falecido. Se o universo do autor Pernambucano são os trágicos anti-heróis suburbanos, os ciclomáticos foram construindo sua poética nos tumultuados caminhos entre o Bonsucesso e o NorteShopping, distante da longínqua Sulacap, suburbanos bem comportados. Esses doces marginais, inspirados em Lewis Carrol montaram uma “Alice no País de Nelson Rodrigues”, como se imergissem dentro de sua obra, numa perspectiva quase surrealista e, para isso, resolveram aliar-se ao grotesco e a farsa para estudar as paranóias do grande cronista que foi Nelson.

Como na dramaturgia colaborativa de Abreu, colaborativa com os atores e a dramaturgia que lhe antecede, acumulam e reverenciam o autor, ao lado de uma profunda ironia e fina paródia. Seu espetáculo é um álbum de família que traz para nós, em seu processo narrativo, as ótimas rubricas rodrigueanas, jogando o texto lido por atores-narradores em cena abanada por leques que se abanam, introduzindo e abalando o costumeiro olhar rodrigueano. Nelson se tornou, pela mãos dos Ciclomáticos e de outros elencos, uma grande tira de seda para os recortes dos irados alfaiates que popularam o território sagrado do FESTIVALE. A personagem central que constrói a trama enlouquecida é Alice (Fabiola Rodrigues), rodeada por um coro narrador de vizinhas andróginas: as vizinhas de Nelson, submissas entram em primeiro plano para comentar os pecados capitais. Um poderoso coro moral que oprime todos os personagens, em todas as obras de Nelson. O drama virou uma narrativa. Aí se identificam criadores e criatura, pois os atores narradores, moralistas, são personas do próprio Nelson rubriqueiro, interpretam suas personagens e o próprio autor em sua escritura. Os personagens na obra de Nelson são atormentados pelos valores morais que os cercam, muitas vezes em personagens ausentes. Em sua boca proliferam valores morais decompostos, mas que fundamentam a moral contemporânea, ainda nos dias de hoje. Aqui o moralismo cerca as personagens e entretece de forma acentuada a grotesca e suburbana moral da classe média dos arrabaldes. Uma classe média que espargiu seus valores por toda nossa moral televisiva. Sim, pois diz o mito que a classe alta e o proletariado não tem moral, só a classe média.

E, para analisar esta dicotomia, se aliam os suburbanos Ciclomáticos num espetáculo de rara qualidade, num ciclo de eterno retorno, sob o prisma do tragicômico e de um grotesco bem comportado que se delicia com o folhetim e evita a peste. É uma montagem muito perspicaz e deliciosa de ser vista, mas cabe ao crítico incomodar. A montagem se apóia totalmente no narrativo e evita o dramático, num lance de rara felicidade, entretanto as chaves do grotesco formalmente utilizadas parecem muito bem comportadas, numa aparência de desfile exaltação, mais que de crítica formal.

A narrativa é sempre interrompida pela narrativa, em cortes ousados e instigantes que trazem o próprio texto dito comentando as máximas rodriguenas. Um achado. Mas a escolha dos figurinos e da maquiagem de André Vital, muito bem realizadas, assim como a bela iluminação de Mauro Carvalho, trazem uma certa monotonia, uma estabilidade. A figura ambivalente que compõe a narrativa dos vizinhos (aqui mais uma vez falo da parte visual), está um tanto gasta na exibição da mídia comercializada e isto parece que nos remete a um código visual do ainda estabelecido, se distanciando um pouco do corrosivo discurso dos textos que poderia carregar o expressionismo de Nelson, hoje. Trás o grupo um dito de Gerd Bornheim, para substanciar o seu trabalho: a mentira é um texto a espera da sua teatralidade, e neste caminho costuraram a obra de Nelson, o que fizeram muito bem. Embora se perceba um certo apoiar em código visual um pouco preguiçoso e muito bem comportado, mesmo quando ousa. Mas isso seria tema para outros grupos e outros diretores, neste tragicômico e competente melodrama “Sobre Mentiras e Segredos” de Ribamar Ribeiro. Um grande espetáculo que deve ser visto e revisto, para se pensar os novos tempos em que se inscreve e com quem dialoga o teatro Rodrigueano. Nele os autores-diretores recortam e re-escrevem os textos da contemporaneidade. Pelos textos apresentados neste festival de novas tendências o que se vê é que os novos artistas recontam as histórias de Nelson, um novo Nelson, com música e com afeto.

Robson Corrêa de Camargo/
Dezembro de 2008
robson.correa.camargo@gmail.com
Professor da Universidade Federal de Goiás. Encenador e crítico
teatral. Doutor em Artes Cênicas pela USP com o trabalho “
Espetáculo do Melodrama”. Trabalhou na Folha de São Paulo e Jornal
Movimento. Leitor crítico dos espetáculos do Festival Internacional de
Rio Preto (2008). Membro do Conselho Editorial das Revistas Karpa
(Califórnia State) e Moringa (UFPb). Tem publicações nas revistas
Gestos, Journal of Beckett Studies, Revista Fenix, etc. Coordena o
grupo Máskara de Pesquisa em Performances Culturais e a Comissão
Assessora de Teatro do MEC/SINAES.