27 de Novembro de 2008

FESTLONA - Festival de Teatro na Lona Cultural João Bosco - Vista Alegre

Publicado por Ribamar Ribeiro em Sem Categoria

Dentres outros grupos, o SENAC está mais uma vez em peso num festival, desta vez no Festival da Lona Cultural João Bosco - Vista Alegre, com três espetáculos, todos dirigidos por Ribamar Ribeiro. Segue os dias dos espetáculos.

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1/12 20hs - PEQUENAS SAGAS NORDESTINAS - LIVRE

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8/12 20hs - O BEIJA FLOR SUSPENSO - LIVRE

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10/12 20hs - O MALDITO - 14 ANOS

15/12 19hs - PREMIAÇÃO

27 de Novembro de 2008

Crítica de Sobre Mentiras e Segredos por Alexandre Mate no FESTIVALE

Publicado por Ribamar Ribeiro em Sem Categoria

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Festivale - Festival de Teatro do Vale do Paraíba - Fundação Cultural Cassiano Ricardo - Crítica dos espetáculos

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Espetáculo: SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS

SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS – A ANDROGINIA DAS VIZINHAS VENCENDO A MORAL E O EROTISMO EXACERBADO DAS MULHERES-OBJETO DE NELSON RODRIGUES.

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Um dos melhores momentos da vigésima terceira edição do Festival do Vale do Ribeira, de São José dos Campos, foi vivido ontem, com o espetáculo apresentado pelo grupo Os Ciclomáticos Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro.
Mesmo premidos pela moda e pelo mito (confere status montar uma obra de Nelson Rodrigues), Os Ciclomáticos apresentaram uma surpreendente (des)montagem do universo rodrigueano, por intermédio de algumas mudanças de foco.

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A primeira mudança de foco diz respeito à dramaturgia. Partindo da exacerbação dos conflitos de natureza sexual vividos por certo modelo de família tão ao gosto de Nelson Rodrigues, Ribamar Ribeiro, autor do texto (a partir da junção e adaptação de textos rodrigueanos e de processos de improvisação com os integrantes do Grupo) prioriza as vizinhas na encenação.
O texto, resultante desse processo, é fragmentado, ágil, e repleto de intervenções. Os diálogos são desenvolvidos ao lado de intervenções das vizinhas – sozinhas ou em coro, que apresentam comentários da vida da família, chefiada pelo autoritário Dr. Ismael, que esquadrinha a vida de todos aqueles ao seu lado.
Temperando esses bons achados, os atores-narradores apresentam, ainda, rubricas do texto-base: referindo-se às características das personagens e aos seus comportamentos.
O texto,portanto, tem uma característica épica em sua estrutura e em seu modo de apresentação do conteúdo. A história da família é interrompida por corifeus e coriféias, de modo absolutamente teatral.
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O espetáculo assume-se teatro e “não reproduz a vida como ela é”. Ao contrário, e à exceção do Dr. Ismael, as personagens masculinas são andróginas: atores fazem as personagens masculinas da peça e formam o coro das vizinhas, permanentemente em cena. O excelente figurino de……. não é realista, mas composto a partir da junção de recortes desiguais, repletos de detalhes e arabescos (formando uma miscelânea grotesca).
Ligado ao figurino, os leques que acompanham todas as personagens, ganham várias significações na obra. Os leques representam, de certa forma, a batuta do conjunto de maestros e maestrinas da cena: belíssimo achado. A maquiagem de …., do mesmo modo que os figurinos, tende a realçar, sobretudo os olhos, nesse caso dando completude à vigilância das vizinhas, que, para bisbilhotar, precisam estar permanentemente de olhos abertos.
A cenografia, de …., é constituída por poucos praticáveis, algumas poucas cadeiras e inúmeros bastidores-molduras-janelas: que devassam e, ao mesmo tempo, congelam a intimidade da família de Alice.
A iluminação de … aproveita-se da cenografia, é eficiente e consegue tirar partido das difíceis cores que compõem o figurino.
O trabalho de coreografização dos corpos em cena, desenvolvido por…., cria excelentes desenhos e deslocamentos das personagens. Enfim, em Sobre mentiras e segredos tudo se integra formando e conferindo uma interessante unidade ao espetáculo.
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À primeira vista e sem tanta reflexão, tendo em vista o impacto da obra, o espetáculo pode transparecer maneirista. Entretanto, o trabalho da segura e sofisticada encenação, a cargo de Ribamar Ribeiro, não permite que a obra se “afunde dentro dela mesma.” Apesar de transitar com múltiplos signos, a obra conta a história muito bem, não se caracterizando em enigma ou na reprodução tão ao gosto fotográfico do realismo.
Obra toda coreografa e fragmentada, marcada por staccato seguido de outro e outro, que confere um ritmo alucinante, ao paroxismo.
Difícil respirar! Esse ritmo frenético, algumas vezes, mostra-se excessivo, mas nada que comprometa a obra. Nesse excesso, percebe-se
o trabalho composto a partir de muitas mãos: diferentes, singulares, mas que imprimem, em conjunto, uma harmonia pela diversidade.
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A junção de tão díspares e diferentes elementos apresentam uma metáfora bastante significativa, talvez a mais cruel das metáforas, a de o real ser perverso e deformante!
Desse modo, e como ficou patente pelas falas do debate ocorrido em 21/11, o conjunto de criadores da obra aproximou-se do expressionismo alemão.
Penso que esta aproximação deu-se singular e visceralmente plantado no pré-expressionismo alemão, naquele que vem de Büchner, passa por Wedekind e começa a se espraiar em Kokoschka, ,á por 1907.
As personagens, mesmo as do núcleo familiar não são, em sentido clássico personagens, são figuras: espécies de über-marionettes (super marionetes) desesperançadas, niilistas, insanas, doentias… As figuras de Sobre segredos e mentiras são manipuladas pela deformante realidade supervisionadas pelas vizinhas.
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Trata-se de uma obra que adota o universo rodrigueano para colocá-lo de cabeça para baixo. A encenação é irreverente e não mitomaniza o autor, não é obediente, não sacraliza “o” Nelson Rodrigues, mas um parceiro por intermédio do qual se contou uma história. Muitas dessas conquistas se deram pela heterogeneidade do elenco. Nesse elenco, percebe-se que cada um se traz, formando um amálgama muito teatral, engravidado de teatralidade.
Ao finalizar o espetáculo com o retrógrado (trajetória de traz para frente, por meio da repetição de fragmentos ou flashes própria obra), se ainda houvesse alguma dúvida, tudo tende a se esclarecer. A cena que congela o elenco no prólogo, a fragmentação da narrativa e os desenhos de cena, a utilização do grotesco como tratamento estético. E tudo faz sentido novamente.
Com esse excelente e coletivo trabalho, orquestrado pelo talentoso Ribamar Ribeiro, Os Ciclomáticos Cia. de Teatro, conseguem desmistificar outro mito, pelo menos de certa produção teatral paulista, a de que um bom espetáculo precise durar três, quatro horas.
Em cinqüenta e cinco minutos Os Ciclomáticos indicam um excelente caminho para se repensar o teatro, Nelson Rodrigues, a unidade pela diferença, a paródia.
Longa vida ao grupo, muitos espaços de representação e de troca e reconhecimento, eis o que esse Grupo pode esperar. Viva!

Alexandre Mate - Professor e pesquisador de teatro

Fotos: João Teodoro

Fonte: http://www.fccr.org.br/festivale/criticas/Sobre_Mentiras_AleMate.pdf